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7 de Setembro: Independência ou Cativeiro?
(Jornal OPOVO, 12/9/99)

Parabéns ao Sortudão! Não pelo negócio(jogo), que eu, particularmente, condeno. Mas pela iniciativa simples de colocar dois palhaços em pernas-de-pau ao final do desfile de 7 de setembro, marcando presença na grande festa da nação. Com exceção dessa, nenhuma outra empresa marcou valiosos e necessários pontos institucionais, junto à pequena multidão que margeou à Av. Des. Moreira, para assistir à festa. Se estavam, eu não vi. E pelo menos à mim, um consumidor, como tantos outros que lá estavam, não alcançaram. Mas poderia ser diferente? Lógico que sim. Basta um pouquinho de pensamento criativo, uma pitada de quebra de paradigma, uma leve inspiração patriótica, ver a educação como a verdadeira independência do país, e o 7 de setembro poderia se transformar em uma festa esperada por todos, festa pra se assistir de camarote. Como?
Em primeiro lugar, o 7 de setembro é uma festa do país, não é só militar, mas também civil. É inquestionável  o quanto impressiona vermos as sirenes ligadas, luzes piscando, baionetas e fuzis em punho, o toc-toc das ferraduras dos cavalos no asfalto, as músicas de campanha, os pracinhas, é impossível não se comover. Mas aceitar que o 7 de setembro se resume a uma apologia à repressão, à luta, ao combate(do roubo, fogo, afogamento, invasores – quem?), enfim, uma apologia à força, é assumir que o Brasil ainda não decretou sua independência, e precisa estar constantemente de guarda alta. Existe melhor combate à tudo isso se não pela educação. É ponto pacífico, e não precisa de muitos comentários: a educação é, e será, a única responsável pela virada da nação, pela transformação do Brasil em país realmente independente da fome, das epidemias, da miséria, dos maus políticos, enfim, independente do presente (afinal, é essa a nossa realidade, hoje). A solução é a educação, e ponto final. Ou quase.
Se as empresas não estavam presentes, muito menos a educação. O fato é que uns poucos colégios da rede estadual participaram da comemoração. Se é pacífico que a educação nos liberta do atraso, e se ela não estava presente à festa na Des. Moreira, resume-se que, pelo menos no Ceará, vivemos uma nação ainda cativa. Mas a grande pergunta é? Onde estavam as grandes redes de ensino de nossa capital? O que representa esta festa para os grandes colégios e para seus alunos? Mais um feriado, ótimo para ser imprensado? Que tipo de civilidade e patriotismo estão, os colégios de hoje, ensinando aos dirigentes da nação de amanhã. 
E aí, o que se faz? Voltar ao modelo antigo, obrigando os colégios a desfilarem seus clientes, desculpem alunos, numa celebração a mediocridade seria um grande retrocesso. Que tal sermos criativos, usarmos do bom marketing e fazermos tudo diferente do modelo que está aí? Como? Imaginem se os colégios de Fortaleza fossem desafiados a apresentar, na avenida, cenas de temas de interesse nacional e local, do passado, presente e futuro, em formato de desfile, e diante de comissões julgadoras, onde seriam avaliadas a criatividade, a relevância dos temas, a performance na encenação, e tantas outras coisas. 
E já que se fala tanto em revitalização do centro, porque não comemorar esse novo 7 de setembro na Pres. Castelo Branco, por exemplo, ao invés da Des. Moreira. E que tal se o horário fosse às 16h, com sol mais frio, entrando pelo começo da noite, e terminando com uma grande festa popular no largo da Catedral. Quem viabilizaria? É aí que entram as empresas. É óbvio que elas teriam interesse em patrocinar a festa, diante da possibilidade de terem seus nomes estampados em faixas, camisas e letreiros nos veículos usados na apresentação, afinal estariam promovendo a marca junto aos alunos, e ao grande público presente. 
Empresas no desfile de 7 de setembro? E por que não? Por acaso é antipatriótico ter uma empresa que gera empregos, paga impostos, e ajuda no desenvolvimento da nação? Basta olharmos para o exemplo norte-americano, onde várias delas não só hasteiam bandeiras de seu país em frente às suas sedes(mesmo que por redução nos impostos), como também carregam em seus uniformes o pavilhão americano. No Brasil, alimentamos um pudor anacrônico, que só nos afasta de desenvolvermos verdadeiros sentimentos patrióticos. Imaginem que essa festa seria uma grande encenação de conquistas e desafios de um Brasil que está dando certo, mas também de denúncia e grito contra injustiças e demandas de um país que ainda está por acontecer. E os colégios? Passariam a fazer o seu verdadeiro papel de educadores e formadores de cidadãos, lutariam pela conquista do título de colégio com maior criatividade e senso de equipe(exigências do profissional moderno), ao invés de unicamente se degladiarem por quem detém o maior número de vestibulandos, ou de gênios ganhadores de prêmios de química ou matemática. Os colégios de hoje fazem um anti-marketing, quando resumem a educação de nossa juventude a ingressar na faculdade, ou a conquistar medalhas de olimpíadas acadêmicas. O Brasil realmente declarará sua independência quando ensinarmos aos nossos jovens que, antes de profissionais, precisamos ser brasileiros, desejosos de lutar pelos interesses desta nação. E o próximo 7 de setembro poderia ser um bom momento para iniciarmos essa virada. Pelo menos no Ceará. 

Paulo Angelim
Consultor de Marketing

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