MARKETING - Artigos

O Marketing aprontou a última do ano.
(Jornal OPOVO, 30/12/99)

Final de ano, festa na casa de um, de outro. Conversa vem e vai, e não dá para ignorar a bola da vez: “bug do milênio”. Tem muita gente preocupada com esse “bicho”. Apareceu até uma amiga minha que disse ter uma simpatia para tratar o “animal” . Na falta de mais sensacionalismo, a mídia não perdeu a chance de transformar um tema sério e importante, numa coisa de traços apocalípticos. Tecnologia à parte, poucos perceberam que o tal do “bug” já entrou em ação, antes mesmo da virada do ano. Mas não foi em computadores. A ação do “bicho” conseguiu detonar pelo menos um capítulo da história geral, aprendida nos bancos escolares. Foi assim com a bendita “virada do milênio e do século”. Tudo obra e ação de marketeiros de plantão que aproveitaram para aprontar mais uma. Vamos ao “causo”. 
Quem estudou história – inclusive os marketeiros – sabe muito bem que o século XX começou no dia 1 de janeiro de 1901, e que o XXI, só começará em 1 de janeiro de 2001. O mesmo ocorre com o milênio. Ponto final. Reticências para os nobres marketeiros, que decidiram dar um “bug” na história. Foram vários os apelos publicitários convidando os consumidores a fazer isso ou aquilo antes do fim do milênio, ou do século. Que a propaganda tenta criar junto aos consumidores um senso de urgência e oportunidade, isso já sabemos. Mas, usar uma falsa informação para gerar esse apelo é admitir que vale qualquer coisa. Isso é insulto, enganação, e não tem nada a ver com o marketing acadêmico, científico. Assim, vale também pílula de farinha, xarope que só tem mel e água, super-garantia total que só inclui as peças, e por aí vai. O que mais me chamou a atenção foi o paradoxo de alguns veículos de comunicação. As redações afirmaram veementemente que era apenas a entrada do sonhado ano 2000. Mas os anúncios, outdoors e VT’s desses mesmos veículos não pouparam munição na famigerada virada do milênio e do século. Idéia de quem? “Cientistas de mercado” que preferiram ignorar os fatos científicos, em detrimento da “voz do povo”. Já ouvi de alguns deles a justificativa que o “fenômeno era forte demais, não dava para combatê-lo, corríamos o risco de ficar falando sozinho”. Com essa lógica, e se dependesse desses profissionais, o Collor ainda era o presidente; ou talvez, já era o imperador brasileiro. Ainda bem que a maioria das redações é independente. Ufa!
Não é toa que, vez por outra, ouvimos pessoas afirmarem: “isso é só marketing”. Uma referência clara a uma mensagem cheia de efeito, forma, plástica, mas desprovida de conteúdo e/ou verdade. Por mais que os teóricos saiam em defesa da matéria, infelizmente constatamos que, no campo prático, os que fazem a profissão adoram botar mais lenha na fogueira. Fazem da ciência do marketing uma Joana D’Arc moderna: correta, mas condenável. Acabam por dar tiros nos próprios pés, afinal, a propaganda é ferramenta do marketing. 
Fico me perguntando qual a próxima que vão aprontar. Se por acaso o “bug” detonar a criatividade desses marketeiros, vai aqui uma sugestão. As empresas que equivocadamente anteciparam a virada do milênio para este ano podem, no final de 2000, sair com a seguinte mensagem: “Atenção! Se você deixou passar a do ano passado, agora é a última chance prá virar o milênio. Essa você não vai perder, vai?”.
A gente se vê por aí. Enquanto isso, Feliz Ano 2000, o último ano do século, e do milênio. Ou não?

Paulo Angelim 
Consultor em Marketing

 Permitida a reprodução, desde que mencionado o autor

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