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(Jornal OPOVO, 27/02/00)

Fui salvo por pouco. Se não tivesse parado por uns poucos segundos, tava tudo perdido. Ultimamente tenho treinado algo não muito fácil. Tenho parado para pensar, antes de dizer algo. Convenhamos que essa não é uma prática tão comum entre nós, seres ``modernos'', induzidos a agir na velocidade do bit. Eu explico. Outro dia, meu filho, Mateus, de 3 anos, entrou no escritório, e quase que sou traído pelas minhas programações mentais, que luto para deletar, e nem sempre consigo.
Ia soltando uma daquelas grandes asneiras, que passamos toda a nossa vida ouvindo em casa, na escola, faculdade e trabalho: ``Mateus, pare de brincar, porque aqui é local de trabalho!''. Ufa! Ainda bem que não saiu. Mas porque tanto pavor diante de uma frase tão simples? Exatamente porque ela não é tão simples quanto parece.Não poder brincar em local de trabalho, é uma das muitas programações mentais que o mundo se encarrega de enfiar em nossos discos rígidos biológicos. E é exatamente por isso que muita gente não consegue achar diversão no trabalho, mas somente sacrifício. Passam a vida pensando no céu das férias, no paraíso do final de semana, loucos para se livrarem do inferno do trabalho.

Isso é só um exemplo de tantos outros modelos mentais, que preferimos perpetuar por gerações, a renová-los, quebrando a cadeia viciosa. Esses conceitos entram e se alojam em nossas cabeças, e, como seres programados, passamos a agir no automático. Sem auto-crítica. É como alguém que insiste em pedir a secretária que o documento seja "datilografado"' no micro. Erra duas vezes. Por não fazer por si só, e ainda por pedir errado. Só para você ter uma idéia dos vários desdobramentos desse problema no seio de uma empresa, veja a seguir outras situações tão emblemáticas quanto aquela primeira, quando quase fui réu confesso.

1) Sala de diretoria, mesa com 12 executivos, e o ``big boss'' sai com essa: ``Bom, agora que terminamos a reunião, vamos começar a trabalhar...'' Ora bolas! E reunião de planejamento também não é trabalho? Trabalho não tem a ver, necessariamente, com movimento. Nem sempre esforço é resultado. É por isso que muitos chegam ao fim de um dia super corrido, e se confortam com um ``hoje trabalhei feito um condenado''. Condenado você vai estar se não reprogramar sua cabeça. 2) Palavras de um diretor de Recursos Desumanos, programado pelos antigos cursos de administração: ``O grande profissional não leva problemas de casa para o trabalho, nem vice-versa''. Sinceramente, eu só queria achar esse botão que liga e desliga nossa natureza familiar e profissional. Como se as duas coisas não pertencessem ao mesmo ser. Como se, enquanto estamos em nossa atividade profissional, pudéssemos deixar de ser pais, mães, esposos e esposas. Não é a toa que tem tanta gente tendo que escolher entre o trabalho e a família, quando com uma simples mudança de atitude mental poderia ficar com os dois. 3) Declaração de amor de um patrão com complexo de paternidade aos funcionários: ``Na nossa empresa, somos como uma família''. Eu queria ver o que aconteceria se um empregado não desse resultado em sua atividade, e saísse para o mesmo com a desculpa amarela: ``Foi mau pai, quer dizer, chefe. Próximo ano eu consigo''. Isso dá certo para explicar o boletim no vermelho para a mãe ou o pai, mas para a cota de vendas não alcançada, é um pouco mais difícil. 4) A última, mais caseira, só pra relaxar, ou ficar mais tenso ainda. Pais preocupados com o futuro profissional dos seus rebentos: ``Minha filha, o que você quer ser quando crescer''? Pára o enterro, que tão querendo ressuscitar o morto. Pense comigo: ``o que seremos'' é mais importante do que ``quem seremos''? Não interessa se médicos, advogados, jornalistas ou vendedores. Interessa sim, antes de qualquer coisa, se conseguiremos ensinar nossos filhos a serem dignos, honestos, respeitadores, cidadãos, pró-ativos, críticos do mundo e da sociedade. E isso independe de profissão. Depende de postura, de valores. Não é a toa que tem tanta gente tentando achar o sucesso numa profissão, colocando-a como fim, e não como meio. Esquecem que o prazer e a realização estão em ``como'' decidimos ser, e não no ``o que'' somos, enquanto profissionais. Com certeza, é mais digno um faxineiro com postura de presidente, do que o inverso. Não que ser faxineiro seja um demérito. Em absoluto.

Como essas, existem inúmeras outras situações. Mas, a questão agora é: quem perde com isso? Nós mesmos, e nossas empresas. Muitas vezes deixamos de experimentar várias experiências positivas porque os ``códigos'' estabelecidos não nos permitem. O desafio então de renovarmos nossos programas mentais está lançado. Não será fácil. Keynes já dizia no começo do século que ``o maior desafio do homem não é fazê-lo aceitar as novas idéias, mas fazê-lo esquecer as velhas''. E então, tá afim de fazer um upgrade?

Paulo Angelim
Consultor em Marketing

 Permitida a reprodução, desde que mencionado o autor

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