MARKETING - Artigos

Joelhinho-cabeça é demais!
(Revista VendaMais, outubro/2000)

"EEEuuuu, sou brasileeeeiiro, com muito orguuuulho, com muito amooooorr..." Na primeira vez o estádio inteiro ainda não tinha entrado no clima. Já na segunda rodada da música, quase que a arquibancada cai. Da terceira vez, a grande maioria ainda conseguiu segurar o pique. Na quinta, só uns poucos mais entusiasmados conseguiram segurar o coro até o fim. Diante do fato, um amigo, que assistia comigo ao jogo do Brasil, comentou: "É impressionante, nem um coro de torcida o brasileiro consegue segurar até o fim".
Fui analisar melhor o caso e vi que o fato se repetia em outras situações, não menos emotivas. Em passeatas, políticas ou não, o puxador dos gritos de guerra tem de suar o "quengo" para, a cada três minutos no máximo, inventar um novo coro, porque a moçada não agüenta ficar repetindo o mesmo por muito tempo. Você já passou por isso? Se fosse nos EUA já faríamos uma pesquisa nacional de opinião e reuniríamos toda a cúpula da CNN para analisar por três dias os resultados. Ok, estamos no Brasil. Vamos em frente.

Continuei a pensar sobre o assunto e fiquei mais intrigado ainda quando lembrei que outros povos agem completamente diferente. Vez por outra, vemos norte-americanos segurando cartazes na rua, andando em círculos, quase como que dançando para a chuva, e gritando as mesmas palavras de ordem por mais de 15 minutos, ininterruptos. Os sul-coreanos, nem se fala (na Coréia do Sul, manifestação ainda é dissolvida na base da bala de borracha). Aqueles asiáticos, antes de saírem "pro quebra-pau" com os policiais – e diga-se de passagem, para eles isso é cultural – não só articulam as mesmas palavras de ordem repetidas por horas, mas também sincronizam-se harmonicamente através de gestos, do tipo "bate-no-peito-e-levanta-a-mão". Tenho certeza de que, com brasileiros, daria câimbra no quinto movimento. A não ser que fosse algo como bota-a-mão-no-joelho-dá-uma-baixadinha, ou aquele outro movimento "poético", quase inspirado em Guimarães Rosa: joelhinho-cabeça-joelhinho-cabeça. Esses movimentos, os brasileiros agüentam repetir por uma hora, fácil, fácil. Mas, excetuando axé-music, a grande verdade é que brasileiro não resiste à uma repetição por muito tempo. Como explicamos esse fenômeno? Afinal, este é um artigo que pretende falar a profissionais de venda.

Vamos dar a virada. Pensando bem sobre o fato, concluí que o fenômeno deve ser tratado como orgulho nacional. Explico: esse tipo de comportamento é peculiar a pessoas extremamente criativas, abertas, emotivas e que, diante de repetições, entediam-se profundamente. É só lembrar quanto tempo uma criança, um celeiro de criatividade, persiste numa mesma brincadeira, ou em um novo brinquedo. Em dez minutos enjoa e procura algo novo para fazer. Pois saiba de uma coisa: isso é comportamento típico do brasileiro, um povo absolutamente criativo. Aí vem a pergunta mais intrigante: por que nossas empresas sofrem com colaboradores pouco criativos, que acomodam-se com as rotinas e até mesmo temem o novo? Vale uma reflexão.

Tentamos importar um modelo americano/europeu rígido, burocrático e acabamos por castrar uma inclinação natural que nosso povo tem para a emotividade, para a espontaneidade e brincadeira – ingrediente principal da criatividade. É verdade que nem toda brincadeira é criativa, às vezes são até de mau gosto. Mas, por outro lado, toda criatividade é um exercício de brincar com a mente, com palavras, com idéias, consigo mesmo. Thomas Edison dizia, em seu laboratório "aqui não temos regras; estamos tentando criar algo novo". É impressionante como as empresas precisam se submeter a "workshops" e consultores, como eu, para criar uns raros instantes de criatividade nas empresas, quando poderiam ter esses momentos continuamente, bastando apenas dar mais liberdade controlada aos seus colaboradores. E o que impede isso tudo? Hierarquias tiranas, problemas no relacionamento, jogos de poder, falhas na comunicação interna, inexistência de objetivos e propósitos claros entre todos da empresa, e a lista vai afora.

Está na hora de mudarmos tudo isso e aproveitarmos esse potencial que nós, brasileiros, temos, e só sabemos usar bem quando saímos porta afora da empresa. É impressionante a diferença de comportamento de um profissional em um bureau (lê-se birô), e em uma mesa de boteco ou bar. Às vezes, penso que o melhor seria recrutar pessoas fazendo-as passar por um teste de mesa de bar. Parece louco, eu sei. Mas o que as empresas estão precisando é de loucuras sãs, criativas, que lhes permitam grandes viradas estratégicas.

Mas cuidado com os exageros. Se aparecer algum consultor "moderninho", propondo começar o dia na empresa colocando os funcionários para dançarem um joelhinho-cabeça, ou um bom-xi-bom-bom-bom-bom, livre-se dele, porque isso não tem nada a ver com liberar a criatividade. Talvez a sexualidade sim. A não ser que sua empresa seja um bloco de carnaval fora de época. Aí tudo bem! Vendas abençoadas e criativas para você.

Paulo Angelim
Consultor em marketing, e instrutor em Vendas e Motivação.

 Permitida a reprodução, desde que mencionado o autor

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