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Eu passo longe. Da Ambev, só quero o guaraná
Antarctica

(EXAME, edição 731, 10/janeiro/2001)

Causou-me repúdio o primitivismo selvagem da cultura de competição interna da AMBEV, revelado pela excelente matéria "Hipercompetição no trabalho: Funciona?", (EXAME, 13 de dezembro). Na verdade, fiquei perplexo. Não com a reportagem, mas com o que ela revela.
Confira algumas preciosidades neandertais ditas pelos trogloditas de plantão da AMBEV: "Queira ou não, este é um mundo capitalista. A grande motivação de uma pessoa no trabalho é ganhar dinheiro" (Magin Rodrigues, chefe da tribo). "Estou aqui pelo desafio profissional e para ganhar dinheiro" (frase da 'orgulhosa' Claudia E. Soares, 32, que vê o marido em média cinco dias por mês, e engordou 10 quilos). Uma das "brincadeiras" preferidas dessa tribo, só para relaxar, é atirar tomates de tecido em colegas que dizem algo considerado tolice. Trata-se de uma versão moderna da prática dos nossos antepassados pré-históricos, que batiam suas clavas de madeira na cabeça de seus pares só por diversão ou por terem discordado de algo, não importando o critério de julgamento. Não é necessário dizer que esta postura, em qualquer grupo, é uma das formas mais eficientes de desenvolver a intransigência e a incompreensão para com o próximo; além de negar que as loucuras e piadas de hoje, são as genialidades de amanhã. Parabéns à AMBEV pela lição.

E o que dizer da grande maioria dos executivos da AMBEV (só não digo a totalidade porque fico com a esperança de que ainda exista algum ser humano lá dentro) que afirma que está satisfeita e "motivada" com esse cenário de hipercompetição e que "não conseguiriam se adaptar a outro ambiente"? Não seria o caso de admitir que essas pessoas são diferentes e esse é o estilo próprio delas, e, por isso, normal, aceitável? Aí é que mora o perigo. A busca obsessiva pelo dinheiro e pela vitória sobre os outros e não sobre si mesmo (superação individual) são vícios perniciosos que cegam seus praticantes, assim como a droga cega um dependente. A quase totalidade dos usuários se encanta com os "benefícios" imediatos proporcionados pela droga (nesse caso, o dinheiro e a competição) e entra no processo sem perceber os malefícios de longo prazo. O fato é que nenhum de nós, pessoas, gente, é apenas um profissional. Temos outras dimensões em nossa vida que precisam ser trabalhadas e desenvolvidas. O sucesso está no equilíbrio entre elas. Nossa vida é como um edifício, sustentado por sete pilares, ou dimensões do ser: espiritual, familiar, mental, física, social, profissional e, por fim, financeira. Se a coluna financeira e profissional ruírem ou se fragilizarem, a pessoa precisará das outras cinco para que o edifício continue de pé. Se os outro pilares não resistirem, o fim é o desmoronamento completo do indivíduo - desmotivação, depressão e até suicídio. Por exemplo: se não trabalharmos prioritariamente o lado espiritual, onde encontraremos a indispensável paz interior necessária para enfrentar os infortúnios que o mundo se encarrega de nos providenciar e que o dinheiro não resolve, como a morte de um filho ou uma doença grave. A missão nobre de uma pessoa não pode se resumir ao que ele ganha com o trabalho – o mais importante é quem ela se torna com isso. Olhe para a História e você verá que os grandes homens são louvados não pelo que ganharam ao longo da vida, mas por suas contribuições à humanidade. Precisamos desenvolver um espírito missionário no que fazemos. E o espírito missionário envolve necessariamente o outro. É interessante como somos capazes de ignorar que, com exceção de nós, toda a população da terra é formada pelos outros. Simples, não? Mas, tem o outro lado. A carta de Jack Welch (presidente mundial da General Eletric), parabenizando um executivo por ter rejeitado o convite para mudar de cidade porque não queria prejudicar a educação das filhas adolescentes, caiu para mim como um bálsamo, um alento. Existe vida humana no mundo corporativo! Há esperança!

Quanto a vocês da AMBEV, por favor, não enviem seus headhunters à minha caça. Vai ser um dinheiro gasto à toa. E, como dinheiro por aí é prioridade, tenho certeza que não vão querer desperdiçar seus recursos com um ser "obsoleto e atrasado" como eu, que ainda coloca o coração acima da razão. E também não precisam se preocupar quanto às minhas preferências de consumo. Vou continuar tomando Guaraná Antarctica. Diet, para não engordar. Bençãos!

Paulo Angelim é consultor em Marketing e instrutor em Vendas e Motivação.
E-mail:
pauloangelim@uol.com.br Home page: www.pauloangelim.com.br

 Permitida a reprodução, desde que mencionado o autor

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