MARKETING - Artigos

A solução para o Brasil é fazer
endomarketing para os brasileiros

(Economia e Mais, Fevereiro/2001)

Ainda não desisti de acreditar no Brasil. Provavelmente não desista. Não por força de fatos que mostrem mudanças significativas nos valores morais da liderança política e empresarial de nossa nação. Mas por pura teimosia mesmo, ou senso de civismo, aprendido na famigerada década do "Brasil: Ame-o ou deixe-o". Pena que o custo deste aprendizado tenha sido tão alto para a nação. Feridas foram abertas, e cicatrizes daquele período militar ainda são vistas no tecido social. Mas uma coisa é fato. Nunca se viu, desde Getúlio, uma época de tanto zelo em incutir nos jovens um sentimento de civismo e amor à pátria como aquela. Infelizmente, na década de 80, o exagero no combate à tudo que cheirasse à regime militar acabou por, inadvertidamente, sepultar uma série de boas práticas existentes na época. Se tivessem persistido, talvez não existisse tanta passividade por parte dos brasileiros diante dos escalabros de corrupção que acometem todos os níveis de nossa sociedade.

Sou de uma época que os cadernos escolares traziam em suas capas fotos de regiões do Brasil, ou animais da fauna brasileira. Nas contra-capas os hinos nacional, da bandeira ou da indepedência. Hoje, foram substituídos por "popozudas" e Gianechinis que cumprem a função de deixar os jovens cada vez mais lascivos, sensuais, minando o plano divino de sexo com amor. Na minha escola, nos tempo de infância, todas as quartas-feiras cantávamos no pátio do colégio o hino nacional, quando do hasteamento do pavilhão (para os mais jovens, que não entendem o significado do termo, pavilhão nada mais é que a bandeira do país – aquele tecido que a Luciana Gimenez usou para enrolar o filho, cena essa registrada em capa de revista nacional, e justificada por ela como prova de "civismo"; a mesma que como prova de civismo também dedica os preciosos 120 minutos de sua programação em rede de televisão para divulgar a suposta vulgaridade das mulheres e da nação, abrindo espaço para que um desajuizado venha nos dizer que um "tapinha não dói"). Perguntei à minha filha, treze anos, quantas vezes, no ano passado, cantaram o hino nacional em seu colégio. Resposta: nenhuma.

O que podemos esperar de jovens que não conseguem compreender que uma nação se constrói com o sacrifício individual de pessoas conscientes de seu dever para com o país? Exatamente o que estamos vendo no cenário político-empresarial nacional: cada um por si e quase ninguém por todos. Como se concebe o Senado brasileiro presidido por um dos mais inegáveis surripiadores do erário nacional? A situação no Brasil chegou à mesma vivida pelo povo hebreu, aproximadamente 600 anos antes de Cristo, quando o profeta Jeremias alertou para o enfraquecimento dos valores morais da liderança daquele povo, registrando em seu livro o seguinte alerta: "Porventura se envergonham de terem cometido abominação? Não; de maneira alguma se envergonham, nem sabem que coisa é envergonhar-se. Portanto cairão entre os que caem; e no tempo em que eu os visitar, serão derribados, diz o Senhor." Quer saber o resultado desse estado de corrupção moral? O reino de Judá deixou de ser estado independente, Jerusalém caiu, foi subjugada pelos babilônicos, e o povo hebreu foi levado cativo ao exílio. Porventura não já vivemos este mesmo estado de corrupção desavergonhada de nossas lideranças, que nos resultou num cativeiro civil, onde a insegurança anda solta nas ruas e os cidadãos em suas prisões domiciliares? E qual a principal origem da violência urbana se não a falta de educação e o abismo social gerado pela distribuição de renda nefasta que hoje temos em nosso país? E qual a razão destes dois últimos senão o desvio das verbas públicas? E se você ainda é daqueles que acredita que pobreza é vontade divina, por favor leia Deuteronômio 15: 1-11. Você verá que pobreza é inércia do homem.

Temos que dar um basta nisso tudo. Se não podemos corrigir os degenerados de valores morais que ocupam nossas lideranças, temos que pelo menos preparar os mais jovens, mostrando que existe um outro modelo a ser seguido. Temos que transformar os Mário Covas do Brasil em símbolos verdadeiros da cidadania autêntica. Acredito que existam muitos como ele espalhados pelo país, mas infelizmente sufocados pelo sistema. Mas vejo uma saída, dentre tantas outras. Acredito que o marketing verdadeiro pode dar uma grande contribuição para mudar este estado de coisas (não confundir com o embuste da propaganda política que nada tem a ver com os verdadeiros princípios do marketing). Na verdade penso que o endomarketing poderia ajudar o país a sair dessa condição insuportável de corrupção e imoralidade generalizada.

Assim como nas organizações, defendo a idéia de "vendermos" internamente a correta imagem do Brasil para os próprios brasileiros, principalmente os jovens. Não a atual imagem maculada gerada pelos noticiários políticos e empresariais. Mas uma imagem correta, gerada pelos mesmos veículos de comunicação, mas que poderiam, de forma apartidária, enaltecer semanalmente um administrador público justo e eficiente, ou uma empresa com preocupação social e ecológica, que possam servir de exemplo para as novas gerações. Eu sei que é difícil encontrar, mas existem. Proponho também um SPC político (Serviço de Proteção ao Cidadão), de alcance nacional, nos mesmos moldes daquele usado pelo comércio, só que público. Um cadastro permanente de todos os políticos corruptos dessa nação. A lista poderia continuar. A questão é se a mídia vai se prestar a esse papel. Vale tentar.

Esse endomarketing seria, indiscutivelmente, um trabalho didático, com efeito de médio prazo e com o objetivo de criar uma antítese ao que, inertes, estamos assistindo na mídia nacional: a institucionalização da lei da vantagem própria através da malversação do patrimônio público. Meios para fazê-lo nós todos temos. Falta-nos talvez a mobilização e o sentimento insubstituível para a construção de uma nação: o civismo. A provocação aos meios de comunicação já está feita. Enquanto isso, vale muita oração. Desde já, que Deus nos abençoe. O Brasil precisa mais do que nunca disso.

Paulo Angelim
Consultor e palestrante em marketing, vendas e motivação

 Permitida a reprodução, desde que mencionado o autor

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